Os riscos dos excessos na Medicina

A Medicina contemporânea, inegavelmente, permite que as pessoas vivam por mais tempo e com mais saúde, de modo que é de certa forma natural pensarmos nela como algo intrinsecamente bom. Mas, sendo a Medicina boa, será que quanto mais, melhor?

Creio que a maioria das pessoas há de convir que não; aliás, a poucas coisas no mundo se aplica essa lógica de “quanto mais, melhor”. A Medicina pressupõe observações e intervenções que, se não forem realizadas com a técnica correta ou no momento oportuno, seguramente mais vão atrapalhar que ajudar. 

Isso pode ser muito óbvio se pensarmos num medicamento cujo uso resulta num evento adverso ou num procedimento invasivo que se complica. Mas mesmo medidas mais ‘inofensivas”, como alguns testes diagnósticos, podem acarretar mais sofrimento que alívio. Imagine, por exemplo, um exame que identifique um risco aumentado para determinada doença, para cuja prevenção não haja nenhuma intervenção conhecida além de medidas de recomendação universal, como consumir uma dieta de qualidade e manter-se com o corpo e a mente ativos: a identificação do aumento do risco só trará preocupação e ansiedade, que geralmente são desproporcionais à realidade, pois “aumento de risco” é diferente de “certeza de doença no futuro”, sobretudo se o risco inicial é baixo. Isso, decididamente, não é bom para a saúde.

Um problema atual é que exames com essas características são comuns, assim como também são comuns exames que podem levar à detecção precoce de alterações que provavelmente nunca teriam repercussão clínica. Em paralelo, há toda uma gama de suplementos e intervenções “preventivos”, bem como uma vasta variedade de tratamentos com vistas a “otimizar” condições que permaneceriam perfeitamente bem sem mais intervenções. Tudo isso é muito atraente em termos de mercado, pois mexe com anseios e receios das pessoas, daí prospera uma Medicina baseada em muitas intervenções, sempre justificadas por boas intenções. Geralmente, isso é anunciado e comercializado de modo bastante apelativo.

Uma prática médica norteada pelo que realmente deve ser útil às pessoas, e não por modismos ou excessos de intervenções destinadas a aparentar eficiência, deve, primeiramente, basear-se nas necessidades, valores e expectativas do paciente. Isso pressupõe uma boa avaliação clínica, e completa-se com intervenções baseadas em boa ciência aplicada ao caso individual. Se pensarmos na população idosa, tal avaliação deve ser muito mais cuidadosa, pois trata-se de uma população extremamente heterogênea, que inclui desde sujeitos muito robustos até pessoas frágeis que, muitas vezes, não toleram tratamentos de primeira escolha, o que exige um cuidado bastante personalizado. O geriatra deve saber reconhecer cada perfil de paciente e, consigo, definir uma conduta sem excessos desnecessários e, por vezes, perigosos, agindo assim na justa medida para promover uma boa saúde.  

Dra. Érica Boteon

Médica formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), com residência em Clínica Médica e Geriatria pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. É especialista em Geriatria pela Associação Médica Brasileira e pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Foi preceptora da residência médica em Geriatria do HCFMUSP entre 2017 e 2018.

Atua como médica assistente colaboradora do Serviço de Cardiogeriatria do InCor – FMUSP e integra o corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês desde 2019.

Dr. Vinícius Félix Altomani

Médico formado e especialista em Clínica Médica pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP, com residência médica em Geriatria e Complementação Especializada (fellowship) em Promoção do Envelhecimento Saudável pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. 

Coordenador da Equipe de Geriatria no hospital Santa Catarina e membro da Equipe de Geriatria do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, além de fazer parte do Corpo Clínico dos hospitais Sírio-Libanês, Nove de Julho e Beneficência Portuguesa.

Dr. Ênio Simas Macedo

Médico formado pela Universidade Federal do Ceará, com residência em Clínica Médica e Geriatria pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Foi preceptor da residência médica em Geriatria do HCFMUSP entre 2025 e 2026.

 

Atua como médico assistente do serviço de Geriatria do HCFMUSP e é integrante do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês. Participa dos projetos de educação médica continuada Estratégia MED e Tá de Clinicagem, o podcast mais escutado por médicos no Brasil. 

Dr. Venceslau Coelho

Médico formado pela Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná, com residência em Clínica Médica pela Universidade Federal do Paraná e especialização em Geriatria pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Possui Título de Especialista em Geriatria pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. 

Atua no Hospital Sírio-Libanês e no Ambulatório de NefroGeriatria do HC-FMUSP. Diretor Médico da LonVi Tecnologia. Membro permanente da Comissão Técnica Científica do Trevoo Expo Summit e Conselheiro do Blog Trevoo-Morar Sênior.

Dra. Regina Miksian Magaldi

Médica formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, com residência em Clínica Médica e Geriatria pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Especialista em Geriatria e Gerontologia pela Associacao Medica Brasileira.

Atua como médica assistente do Serviço de Geriatria e é coordenadora do Ambulatorio de Memória do Idoso e do Centro de Referência em Distúrbios Cognitivos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Integrante da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein.

Dr. Paulo Guilherme de Arruda Miranda

Médico formado pela Faculdade de Medicina do ABC, com residência em Clínica Médica e Geriatria pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Fez Complementação Especializada (Fellowship) em Distúrbios Cognitivos pelo Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Possui também Especialização em Cuidados Paliativos pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês. 

Atua no Hospital Albert Einstein e é médico assistente do Serviço de Geriatria do HCFMUSP, onde atua no Hospital Dia Geriátrico e Ambulatório Geral de Geriatria

Dra. Laura Tardeli

Médica formada pela Universidade de São Paulo (USP), com residência em Clínica Médica e Geriatria pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Possui especialização em Oncogeriatria pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês.

Atua no Hospital Santa Catarina, Hospital São Camilo e no Ambulatório de Geriatria do HC-FMUSP.

Dra. Ana Carolina

Médica formada pela Faculdade de Medicina de Catanduva, com residência em Clínica Médica pelo IAMSPE e Geriatria pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Possui Título de Especialista em Geriatria pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Possui, ainda, especialização em Oncogeriatria pelo IEP Sírio-Libanês e Sociedade Internacional de Oncogeriatria. 

Atua no hospital Sírio-Libanês e no Ambulatório de Geriatria Geral do HC-FMUSP.

Dr. José Renato

Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, com residência em Clínica Médica e Geriatria pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Possui Título de Especialista em Geriatria pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.

É médico assistente do Serviço de Geriatria do HCFMUSP, e coordena o Curso de Educação em Geriatria da Manole Educação.